Minha infância foi boa. Nadava bastante. Brincava de pegador na piscina do [Clube] Hebraica usando o trampolim de cinco metros. Caçava objetos no ralo do fundo da piscina. Minha mãe tinha uma loja de joias, e no fundo dela trabalhava um ourives que derretia ouro num cadinho usando maçarico a gás. Derretia ouro pra fazer anéis e alianças. Era muito encantador o brilho do ouro.
Desde os seis anos estudei violão e cantava Roberto Carlos. Gostava de Elis Regina, Jair Rodrigues e Wilson Simonal. Sair de Pinheiros (eu morava na Teodoro Sampaio) até a USP (Universidade de São Paulo) de bicicleta, era uma aventura no meio do mato. O bonde parava embaixo da janela do meu quarto. Fazia um guincho agudo, mas eu só dormia depois de o bonde passar. Sou filho único, brincava muito sozinho.
Cada geração canta a vida com a sua voz. Quando eu era criança não havia internet. Havia menos informação e mais tempo pra “deglutição”. Era uma delícia ir à loja de discos com meu pai e comprar três discos de vinil. Chegar em casa e ouvir na Telefunken, um aparelho gigante cheio de luzes e com um som espetacular.
Muito melhor do que esse sonzinho de quinta categoria que sai de um tablet. Quantas crianças já ouviram um som com fone de ouvido? Muita coisa mudou. Mas é difícil dizer se um é melhor que outro. E certamente algumas coisas não mudam: criança quer brincar e saber quem vai cuidar dela.
As coisas que uma criança aprende são como tijolos. A cultura é como o cimento: interliga, solidifica, constrói.
Eu, quando era criança, não escutava música de criança. Escutava o Fino da Bossa, Jovem Guarda, Jorge Ben. Mas também as histórias cantadas da coleção Disquinho. Criei pra mim um slogan: “música pra criança gostar de música”. Acho que as obras criadas para crianças são boas quando as crianças as tomam para si como brinquedos. E são importantes quando criam pontes que ligam a criança à cultura como um todo.