No Dia das Mães vemos diversas frases e mensagens rodando pelas redes sociais no que deveriam ser homenagens, mas acabam por romantizar a sobrecarga das mães na criação dos filhos e desconsideram as diversas formas possíveis de maternar.
Por isso o AzMina fez um experimento e fez uma busca por “frases para o Dia das Mães”. E o resultado foi um festival de frases que romantizam a jornada dupla ou tripla de trabalho, que tratam a maternidade como algo santificado, heroico, instintivo, que desconsidera as experiências de cada mulher e as diversas formas possíveis de maternar.
Então criaram uma série de artes para desconstruir essas frases e os sensos comuns que estamos tão acostumadas a ouvir – e muitas vezes reproduzir – sobre maternidade.
O que chamamos de amor materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito, lembra Tayná Leite, colunista d’AzMina e autora do livro Gestar, parir e amar: não é só começar.

Quantos homens você já ouviu falar “eu nasci para ser pai”? Se a sua conta for um total de zero, bateu com o nosso resultado aqui. Essa frase traz a ideia da maternidade como algo compulsório, ou seja, que uma mulher é incompleta se ela não for mãe.

Você já deve ter visto o vídeo “O Trabalho Mais Difícil do Mundo”, desenvolvido por uma agência que sempre circula no Dia das Mães e arranca umas lágrimas.
A campanha mostra candidatos a uma vaga de emprego reagindo à descrição de uma vaga com requisitos desumanos. A intenção pode ser valorizar essa função do cuidado hoje delegada às mulheres, mas acaba por romantizá-la.
Primeiro, porque ser mãe não é um trabalho. Trabalho são todas as atividades atreladas aos cuidados dos filhos, que não são de responsabilidade apenas da mãe.
Segundo, porque o custo de produzir e criar pessoas deveria ser dividido pela família, Estado e mercado de trabalho – este último exclui as mães ao demiti-las no retorno da licença maternidade e as empurra para o mercado informal (em que mulheres são a maioria), sem direito à licença.

De novo, uma visão desumanizadora de mulheres que poder ser muito diferentes entre si e que, portanto, vão maternar de formas diferentes. A psicóloga Camila Ramos explica que essa ideia pronta de maternidade não leva em conta questões culturais, raciais, de sexualidade e singularidades, além de classe social e econômica.

Da mesma série que considera a maternidade como um instinto, essa frase carrega a ideia de que ser mãe é um dever religioso da mulher. Um sacrifício ao qual ela deve se submeter para alcançar o paraíso. Bom, como não sabemos o que acontece após a morte, temos certeza que as mães ficariam felizes de dividir as tarefas e poder curtir o paraíso aqui mesmo – que muitas vezes é apenas curtir um banho longo.

Pode rir da rima (porque a gente riu). Passamos uma vida sendo bombardedas pela ideia de que ser mãe é algo natural. Às meninas dão bonecas e aos meninos foguetes, o que mostra às crianças desde cedo que determinados lugares e funções são destinadas a determinados gêneros. Mas são, na verdade, construções sociais, históricas e culturais, frutos dos interesses de cada época.
Quer um exemplo? Na Idade Média, a família europeia não tinha qualquer tipo de relação afetiva entre o casal e entre este e seus filhos. Os casamentos eram arranjados (tinham o objetivo de manutenção dos bens familiares) e a maternidade não tinha valor (os bebês eram alimentados por amas-de-leite e permaneciam sob os cuidados de terceiros até os oito anos, partir de quando já eram considerados adultos).