Créditos: Gov.br e ANPD

Discord terá que suspender lives no Brasil por falhas na proteção de crianças e adolescentes

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspenda, no Brasil, a função de transmissões ao vivo e outros recursos equivalentes de compartilhamento de vídeos. A medida preventiva foi anunciada na quarta-feira (12) e deve ser cumprida pela plataforma em até três dias úteis.

A suspensão vale até que o Discord comprove a adoção de medidas técnicas, de segurança e de governança consideradas adequadas para proteger crianças e adolescentes. A empresa poderá recorrer da decisão em até dez dias úteis.

Por que o Discord terá que suspender as transmissões ao vivo?

A decisão faz parte de um processo de fiscalização iniciado pela ANPD na sexta-feira (7), para investigar possíveis falhas na proteção de crianças e adolescentes dentro da plataforma.

Segundo a Agência, foram identificadas evidências de que o Discord não adotou medidas consideradas suficientes para prevenir e reduzir riscos relacionados ao acesso, à exposição, à recomendação ou à facilitação de contato de menores de 18 anos com conteúdos e práticas que podem representar graves violações de direitos.

Entre os problemas apontados estão situações relacionadas à violência, ao assédio, à indução à automutilação e ao suicídio.

Discord não será bloqueado no Brasil

A decisão não significa que o Discord será proibido no país.

O aplicativo continuará funcionando, mas a ferramenta “Go Live” deverá ser suspensa, assim como outros recursos equivalentes de transmissão e compartilhamento de vídeos. A medida foi direcionada especificamente às funcionalidades que, segundo a ANPD, apresentam maior risco para menores de 18 anos.

A plataforma só poderá reativar as transmissões depois de demonstrar à ANPD que implementou medidas eficazes para reduzir os riscos identificados e receber autorização expressa e prévia da Agência.

Por que é difícil fiscalizar o que acontece nas lives?

Um dos problemas apontados pela ANPD está na própria estrutura técnica do Discord.

Durante as transmissões, a plataforma não teria acesso ao conteúdo dos vídeos em tempo real. Com isso, não consegue utilizar mecanismos de análise do conteúdo audiovisual para identificar imediatamente possíveis violações.

Além das transmissões ao vivo, a fiscalização também apura possíveis falhas na aferição de idade dos usuários, na remoção de conteúdos que violam direitos de crianças e adolescentes e na comunicação de situações às autoridades competentes.

O que o Discord diz sobre a decisão?

Em nota, o Discord afirmou que mantém diálogo com as autoridades brasileiras e trabalha para combater grupos e pessoas que promovem ou incentivam violência.

A empresa também informou que possui equipes responsáveis por identificar grupos, remover conteúdos que violem suas políticas e tomar medidas contra os responsáveis. Segundo o Discord, a plataforma está colaborando com as autoridades na investigação do caso ocorrido em Mato Grosso do Sul.

Denúncias envolvendo o Discord aumentaram

De acordo com dados da SaferNet Brasil citados pela ANPD, o número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% nos sete primeiros meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.

Foram 406 notificações no período deste ano, contra 264 no ano passado.

Adolescentes passam horas por dia conectados

A decisão acontece em um momento em que a internet já ocupa um espaço importante na vida dos adolescentes.

Um estudo do Instituto Alana em parceria com a KOGA, unidade de estudos comportamentais da DOJO, ajuda a entender essa relação. A pesquisa “Adolescência sem Filtro” ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos em todo o Brasil.

Os dados mostram que a internet não é usada apenas para diversão. Ela também faz parte da vida social, dos estudos, dos relacionamentos e da descoberta de novos interesses.

Entre as atividades mais frequentes estão as redes sociais, citadas por 46% dos entrevistados; conversar com amigos e familiares, por 37%; jogos, por 30%; estudos, por 23%; e assistir a vídeos ou streamings, por 21%.

O tempo conectado também chama atenção: 78% dos adolescentes passam pelo menos três a quatro horas por dia online, enquanto 48% ficam cinco horas ou mais na internet diariamente.

Os próprios adolescentes reconhecem os riscos

Apesar dos benefícios, os adolescentes ouvidos na pesquisa também reconhecem que a relação com a internet pode trazer problemas.

Metade afirma passar mais tempo online do que gostaria. Outros 41% se sentem mais dependentes do celular ou da internet, enquanto 39% acreditam ter perdido tempo nos estudos por causa do uso da rede.

Entre os principais medos estão golpes ou fraudes, mencionados por 41% dos entrevistados, e violência ou conteúdos de ódio, citados por 24%.

A internet também provoca sentimentos diferentes. Diversão aparece para 71% dos adolescentes e felicidade para 63%. Ao mesmo tempo, 27% relatam sentir cansaço e 22%, ansiedade.

Jovens querem continuar na internet, mas com mais segurança

Mesmo reconhecendo esses problemas, os adolescentes não querem simplesmente abandonar a internet.

Na pesquisa, 71% afirmam que ela deve continuar existindo, mas precisa mudar. Entre as mudanças desejadas estão mais segurança e privacidade, combate ao ódio, maior controle sobre algoritmos, educação digital e apoio para lidar com os efeitos da vida online.

O estudo mostra ainda que 69% dos adolescentes estão abertos a receber ajuda externa para lidar com a internet.

Eles também já utilizam algumas formas de proteção: 44% bloqueiam contas ou conteúdos, 37% denunciam perfis ou conteúdos inadequados, 32% fazem pausas e 24% limitam o tempo de tela.

Ao mesmo tempo, os resultados mostram que os adolescentes não deveriam carregar sozinhos a responsabilidade de identificar e evitar todos os riscos do ambiente digital.

O que os pais podem fazer?

Para quem tem filhos que usam Discord ou outras plataformas de comunicação, a decisão da ANPD pode ser um bom momento para conversar sobre o que acontece na internet.

Não é preciso conhecer todos os aplicativos ou entender cada recurso. Comece perguntando quais plataformas seu filho usa, quais grupos frequenta e com quem costuma conversar.

Também é importante que ele saiba que pode procurar um adulto quando encontrar algo que cause medo, constrangimento ou desconforto. Conhecer os recursos de bloqueio, denúncia e privacidade das plataformas também ajuda.

O estudo “Adolescência sem Filtro” mostra que os próprios jovens querem uma internet mais segura, mas reconhecem que precisam de apoio para lidar com um ambiente que muda rapidamente.

Por isso, aproveite o assunto para abrir uma conversa em casa. Pergunte o que seu filho gosta de fazer online, quais situações o incomodam e se existe algo na internet que ele tenha medo ou vergonha de contar.

Acompanhar a vida digital não significa apenas controlar o tempo de tela. Também significa conhecer os espaços que fazem parte da rotina dos filhos e criar confiança para que eles saibam a quem recorrer quando alguma coisa sair do controle.


Créditos:
Fonte da notícia: Agência Brasil
Publicado originalmente em: 12 de agosto de 2026.
Informações complementares: Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), a partir de comunicado oficial publicado em 12 de agosto de 2026.
Dados sobre denúncias: SaferNet Brasil, conforme informações divulgadas pela ANPD.
Dados sobre adolescentes: estudo “Adolescência sem Filtro”, realizado pelo Instituto Alana em parceria com a KOGA, unidade de estudos comportamentais da DOJO, em agosto de 2026.

Criado em 13/08/26
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