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O que é, enfim, ser gente? Como falar sobre isso com as crianças?

Por Vanessa Santos - publicado em 28/11/2018

Sabe a sensação de resgatar a consciência de que muita coisa básica que muita gente faz, no piloto automático, é superimportante e apesar disso, negligenciada a um montão de outras pessoas?   Pois é, foi isso o que senti quando conversei com Fábio Sgroi, ilustrador, escritor e autor do livro “Ser Humano É…Declaração Universal dos Direitos Humanos para Crianças”, recentemente lançado pela Editora do Brasil. Conversamos sobre a ideia de um livro com essa temática, a princípio tão complexa e distante do universo infantil, e o desafio de transpô-la para uma linguagem lúdica e bem-humorada sem ser banal. Difícil e muito interessante, não é? Assim que tomei conhecimento do livro, fiquei curiosíssima para conhece-lo e saber como foi o processo de entrelaçar texto e ilustração na tarefa de tornar claro aos pequenos o que é, enfim, ser gente. E sabe que, pensando bem, esse assunto nem deveria ser tão complexo assim?

Por isso resolvi compartilhar a novidade do livro aqui pela importância da narrativa que ele carrega e pela forma criativa como foi construída: o livro simplifica as coisas, reproduzindo artigos da Declaração, de forma adaptada, e trazendo rimas e ilustrações que ajudam os pequenos a compreenderem os Direitos. A obra é uma dica fantástica para crianças a partir do segundo ano do Ensino Fundamental e para leitura compartilhada com pais ou educadores. Mas nos trechos da nossa conversa, que reproduzo abaixo, Sgroi conta como trabalhou no projeto para que ele também proporcionasse o prazer da leitura aos adultos, pois “Direitos Humanos devem ser a base de qualquer atitude na vida, seja criança ou mais velho”, diz ele, e com razão.

Sgroi é pai da Gabriela, de 14 anos, e do Vitor, de 8 anos, segundo o que contou, desenha desde que se conhece por gente. Começou com os didáticos e depois passou a ilustrar livros literários. A escrita veio mais tarde um pouco, mas sempre com foco no público infanto-juvenil. Fica a dica de leitura! O livro tem preço de capa de R$ 49,00. Você pode adquirir seu exemplar aqui. Confira abaixo a entrevista.


1. O livro é muito legal e interessante. Eu nunca tinha visto essa temática direcionada aos pequenos. De onde veio a ideia? 

O livro nasceu de uma situação bizarra: fui visitar uma escola particular e o diretor me parou no corredor pra falar, orgulhoso, que ali, “na escola dele”, se educavam campeões. Fiquei horrorizado com aquela frase, mas retruquei, em tom de piada: “Ufa, que bom! Pensei que aqui as crianças fossem educadas para serem humanas”. Pensei que nenhuma escola deveria incutir em seus alunos um propósito de vida tão vazio como o de se tornar “vencedor”. Vencedor de quê, se moramos em um país onde seis brasileiros têm uma riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões mais pobres? A gente esquece que tem criança que não tem escola, hospital, casa e, muitas vezes, não tem nem o que comer. Por acaso eu tinha visto um pouco antes, em um site, a Declaração dos Direitos Humanos, e na hora lembrei do primeiro artigo que dizia que todas os seres humanos nascem livres e iguais, e que devem agir com fraternidade. A partir daí, veio a questão: educar uma criança para “ser campeã” fará com que ela deseje agir com fraternidade? Claro que não! Fará com que ela deseje ser a primeira colocada em seja lá o que for, que queira estar acima dos demais, e que ache natural a divisão entre “vencedores” e “perdedores”, e, consequentemente, entre “ricos” e “pobres”. Famílias e comunidades deveriam estar empenhadas em formar crianças preparadas para lidar com as incertezas da vida, que são muitas, e em unir as pessoas, para se ajudarem. Foi aí que percebi que um livro tratando de Direitos Humanos seria de grande utilidade às crianças, pais e educadores.

2. Texto e ilustração aparecem muito parceiros nessa temática. Qual o peso de cada um deles?

Cada linguagem contribui com um aspecto. As informações referentes aos artigos da Declaração são passadas por meio do texto, que foi adaptado para uma linguagem poética e de fácil compreensão, enquanto que as ilustrações propõem reflexões sobre cada tema, sempre de maneira lúdica e bem-humorada.

3. Qual a importância que o tema tem hoje, em sua opinião?

Direitos Humanos são os direitos mais básicos e mais simples que todas as pessoas possuem. Estar vivo, por exemplo, é um direito humano. Expressar o que pensa e o que sente é outro, assim como estudar, se alimentar quando está com fome e ir ao médico quando fica doente. O meu entendimento é que esses direitos, antes mesmo de constarem em qualquer orientação jurídica, funcionam como uma reflexão a respeito do que é “ser humano”. Antes de ser um tema a ser tratado por juristas, é algo que todo mundo nasce “sabendo”, pois estão relacionados com a nossa sobrevivência. Um bebê que está mamando instintivamente no seio da mãe não sabe que está exercendo um direito, o de alimentar-se, assim como uma criança que está brincando com outras não sabe que está exercendo seus direitos de expressar-se. Como dá para perceber, caso a gente refletisse a respeito do que é realmente necessário para viver, não precisaríamos de um documento relacionando nossos “direitos de humanos”; bastaria que nós, enquanto sociedade, organizássemos nosso modo de vida para que essas coisas tão simples e tão básicas não fossem negadas a ninguém. A importância deste tema, portanto, é que ele está ligado a tudo o que nós fazemos naturalmente, ou que deveríamos fazer.  Propiciar às crianças conhecer os Direitos Humanos é dar-lhes uma ótima oportunidade para que elas cresçam pensando de maneira crítica e questionadora.

4. Quais foram os desafios na composição do livro?

O desafio foi estabelecer uma linguagem agradável, humana e universal, que dialogasse tanto com as crianças quanto com pais e educadores. Para tanto, optei por escrever um texto com rimas acessíveis e divertidas, intercalado com pequenas citações da Declaração, adaptadas para que os pequenos compreendessem. As ilustrações, decidi fazer todas com tinta guache e papel Canson – e não em computador, como normalmente faço –, utilizando um estilo de desenho simples e despojado, para que ficasse bem evidente a expressão humana.

5. Em sua opinião, como ilustrador, qual é o papel das ilustrações no universo literário infantil? Como elas ajudam a construir o gosto pela leitura, desde cedo?

O papel da ilustração na literatura não é o de enfeitar ou de meramente repetir por meio de imagens aquilo que o texto já diz. A ilustração é parte essencial da narrativa, seja complementando alguma ideia expressa no texto, seja acrescentando camadas de sentido ou, até mesmo, estabelecendo uma relação conflitante ao dizer algo que se opõe ao que as palavras afirmam. A ilustração é linguagem visual, assim como o texto é uma linguagem verbal. A mensagem de um livro ilustrado, portanto, é resultado da articulação destas duas linguagens. A ilustração literária é importante no universo infantil porque proporciona o contato com a linguagem visual, algo que domina cada vez mais os processos comunicativos. Assim, torna-se necessário que a criança seja alfabetizada não só dentro do universo verbal, mas no universo visual também.

Sobre Vanessa Santos:
Jornalista e executiva de comunicação empresarial, locutora e autora de livro infantil. Mãe do Samuel.
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Sobre o Vanessa Santos:
Jornalista e executiva de comunicação empresarial, locutora e autora de livro infantil. Mãe do Samuel.
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